Leitor 69: Cida

Escrito por Índigo às 09h24

Quando a vi pela primeira vez eu nem sabia o que eu queria ser da vida e ela já estava lá, na Livraria da Vila da Vila Madalena, parada no balcão, com os óculos na ponta do nariz, lendo em pé. Bati o olho e soube, essa entende. Foi também a primeira vez que entrei na livraria que desde então se tornou a minha livraria. Pra mim Cida é na verdade uma espécie de fada madrinha. De repente ela se materializa do seu lado, puxa um livro de alguma pilha e sussurra:

-              Esse.

Não é que ela entenda tudo de livros. Ela consegue criar conexões entre livros e pessoas. Sabe quem combina com o que, quem deveria ler quem, quem você está procurando sem nem saber. Duvida? Vai lá pra ver. Eu garanto.

Escrito por Índigo às 09h24

Leitor 68: Fernanda Dumbra

Escrito por Índigo às 10h26

Dizem que cabe ao leitor dar significado ao texto. Eu nunca duvidei, mas também nunca entendi direito o que isso queria dizer. Até que um belo dia Fernanda Dumbra pegou alguns textos meus para ler. Foi um choque. Aquilo que eu considerava engraçado, na sua interpretação ficou sombrio. O que era para ser triste virou comédia. Onde eu havia apenas narrado, sem nenhuma ambição, virou um momento de grande suspense. No fim sobrou apenas uma certeza, eu não sabia o que eu tinha escrito. Em algum ponto, no meio do caminho entre aquilo que botei no papel e o que chegou até ela ocorreu uma metamorfose maluca. Foi aí que eu entendi a tal contribuição do leitor. A verdade é que vocês fazem o que querem com o texto da gente.

Escrito por Índigo às 10h26

Leitor 67: Marcelino Freire

Escrito por Índigo às 12h09

Com sete anos de idade eu achava que sabia ler. Era uma coisa resolvida na minha cabeça, até que muitos anos depois conheci Marcelino Freire e descobri que eu não sabia ler coisa nenhuma. Hoje, se sei ler uns continhos em voz alta, é graças a ele. Teve uma época em que reuníamos um grupo de escritores e vivíamos lendo um para o outro. Quer dizer, nós líamos, Marcelino interpretava. Em alguns contos parecia que ele estava dando uma bronca no mundo, noutros eu achava que ele ia sair voando. Ele era aparelho do texto.
Foi assim que eu aprendi a ler pela segunda vez. Esqueci tudo que sabia até então e comecei, palavra por palavra, frase por frase, até conseguir ouvir cada letrinha individualmente. Alguns anos depois tive um terceiro aprendizado. Falo disso amanhã.

Escrito por Índigo às 12h09