Leitor 61: O leitor mão na massa

Escrito por Índigo às 08h04

Dizem que um bom leitor é aquele que consegue preencher lacunas e dar vida ao texto. O maior exemplo disso é o leitor de receitas. Primeiro, porque as lacunas são abissais. Nesse sentido certas receitas são pura poesia. O autor joga as palavras ali e cabe a você conferir um significado para aquilo tudo. Não é à toa que são raríssimos aqueles que assinam receitas. A maioria prefere o anonimato. Segundo, porque literatura pode ser uma atividade muito prazerosa e coisa e tal, mas só o leitor de receitas consegue pegar um texto abstrato e transformá-lo em algo que vai encher a barriga do povo.

Escrito por Índigo às 08h04

Leitor 60: O leitor Passione

Escrito por Índigo às 08h36

Eu os admiro. Eu mesma adoraria ter as habilidades do Fred Lobato no que diz respeito à velocidade e compreensão de leitura. Você recebe um calhamaço de documentos que devem ser lidos com atenção. Tá, tudo bem que eu não sou a pessoa mais rápida do mundo. Se me dão um calhamaço, no assunto que for, primeiro eu vou fazer um chá, depois eu me acomodo no sofá, dependendo do dia eu pego um cobertor, já pego uma caneta e um bloquinho e começo a leitura. Com atenção. Deve ser por isso que eu não leio um décimo de tudo que eu gostaria. Mas se eu fosse que nem o Fred, um calhamaço de documentos, zaz, três segundos e está tudo lido, ele já entendeu tudo e já formulou uma opinião a respeito. Incrível. O perigo é se você herdar as habilidades da B. Gouveia. Ela demorou mais de um ano para sacar que Otabol é Lobato de trás pra frente. Grave isso...

Escrito por Índigo às 08h36

Leitor 59: Leitor Soneca x Autor Sonífero

Escrito por Índigo às 08h59

Essa é uma daquelas questões polêmicas, na linha ovo x galinha. Será que é o leitor que, por ser avoado começa a sonhar acordado ou será culpa do autor, que por ter produzido um texto enfadonho fez com que o leitor divagasse a perder de vista. É algo que eu sempre me pergunto. O problema do Leitor Soneca é que normalmente ele se faz de vítima, joga a culpa no autor, fecha o livro e depois ainda tem o disparate de falar mal da obra. São poucos os que tomam a responsabilidade para si. Mas daí temos também o Autor Sonífero, que sabe ser sádico quando quer. Esses dias eu atravessei dez páginas de um certo clássico da literatura universal que dava tédio profundo. Aquele tédio esmagador que acaba com a gente. Dormi no ato. O nome do livro não vem ao caso. Como eu disse, pode ter sido uma limitação minha.

Escrito por Índigo às 08h59

Leitor 58: O leitor bandido

Escrito por Índigo às 08h17

Como o próprio nome diz, esse tipo de leitor é famoso por embolsar livrinhos desavisados. É seu hobby. Muitas vezes com motivação política, sócio-econômica, ideológica e pedagógica, sei lá. Sua biblioteca é a caverna do Ali-Baba, uma obra de colecionador. Livros que você sempre desejou, mas nunca teve oportunidade de comprar, estão lá, em edições caprichadas, novinhos em folha. Então o leitor bandido começa a discorrer sobre seus livros prediletos. Você pensa no preço daqueles livros, na sua vontade de tê-los também, no lucro das editoras e das livrarias, e na merreca que é o direito autoral do autor. Quando você vê, o leitor bandido começa a fazer todo o sentido do mundo. Uma espécie de Che Guevara sedentário, um ídolo admirável.

Escrito por Índigo às 08h17

Leitor 57: O leitor de manual

Escrito por Índigo às 10h41

Eles têm um modo de raciocinar muito particular. Para eles solucionar um problema técnico é uma experiência prazerosa. Só por isso eles se lembram da existência dos manuais, não por acreditar que ali encontrarão a solução, mas porque o manual em si representa um delicioso desafio. Primeiramente terão de encontrar a sessão do manual que remete ao seu problema em particular. Depois, e isso é o que eles mais adoram, interpretar o texto e traduzi-lo para linguagem humana. Em seguida descobrir a associação entre os desenhinhos e as peças reais, que estão na sua frente. Tudo isso levará horas ou um fim de semana inteiro. Nesse tempo ele poderia ter lido o novo livro da Rosa Monteiro ou o jornal de domingo de cabo a rabo, mas para quê? O leitor de manual busca a alegria de ver um aparelho funcionando, para muitos uma alegria inatingível.

Escrito por Índigo às 10h41