Leitor 73: O leitor deste blog

Escrito por Índigo às 10h52

Hoje chegamos ao último leitor da lista: você aí.
Who are you?
Sei que no meio tem parente, amigos e pessoas vagamente conhecidas. Sei que são pessoas de tudo quanto é idade e lugar, e que a grande maioria é uma incógnita pra mim. Sei que tem editores, professores e pessoas que já leram livros meus. Também tem gente que me acompanha há anos na internet e ficou só nisso. Tem de tudo. Mas na verdade eu prefiro não saber muita coisa sobre quem me lê. É só uma vaga curiosidade. O importante é que vocês estão aí, e esse é meu maior incentivo para seguir escrevendo. Se não fosse por vocês eu nem estaria aqui, pra começo de conversa.  Então, obrigada!

Ainda bem que esse blog não tem fotos, senão eu teria de botar uma foto minha com vestido de gala agradecendo o carinho do público. Mas chega de discurso. Amanhã eu volto pra boa e velha “Vida no campo”. Te espero lá.

Escrito por Índigo às 10h52

Leitor 72: O leitor em fim de carreira

Escrito por Índigo às 10h29

... até que chega um dia em que o corpo não aguenta mais tanta leitura. As letras começam a encolher e as frases ficam pulando pra cima e pra baixo no meio da página. A vista não acompanha. Cansa. O cérebro pede uma trégua. Prefere remoer tudo aquilo que já absorveu, sem ter que digerir mais nada de novo. E assim grandes leitores vão se afastando do mundo dos livros, pedem licença, agradecem os bons momentos e saem de fininho. Ligam para a gente e nos convidam para uma visitinha. Quando você chega tem uma caixa de velhos livros amarelados que foram separados especialmente para você.

É como se a gente levasse um pedaço da pessoa para casa.

Escrito por Índigo às 10h29

Leitor 71: O leitor abstrato

Escrito por Índigo às 09h09

Para ele a experiência de leitura é meio quimérica. Os livros já lidos vão se dissipando feito neblina e tudo que resta é uma vaga sensação de gostou ou não gostou, sem no entanto poder dizer o porquê. Mas ele gosta de ler, acompanha as resenhas e faz anotações mentais dos livros que pretende ler. O problema é que esses também se comportam de um jeito fantasmagórico. O leitor já não consegue lembrar o título do livro, o nome do autor e nem a editora. Lembra que tinha uma relação com memória ou saudade, ou então era uma biografia de um saxofonista, um negócio assim.

Escrito por Índigo às 09h09

Leitor 70: O leitor atrapalhado

Escrito por Índigo às 09h12

Talvez tenha a ver com o excesso de informação dos dias atuais, talvez seja afobação, mas segundo uma vendedora de livros me contou, a quantidade de leitores atrapalhados tem aumentado. Chegam perguntando por livros da Sara Mago, aquela escritora portuguesa, ou então do Saramango, esse todo mundo sabe quem é. Outra escritora muito procurada é a Mia Couto. Um autor não tão procurado é o Índigo, mas de vez em quando alguém também pede. Se vão direto ao título a coisa só complica, pois nesse caso são muitos os pedidos por “A menina que roubava pipas” e “Comer, orar e chorar”.

* Pérolas garimpadas pela Michelle Sill, boa e velha leitora dessas páginas

 

Escrito por Índigo às 09h12

Leitor 69: Cida

Escrito por Índigo às 09h24

Quando a vi pela primeira vez eu nem sabia o que eu queria ser da vida e ela já estava lá, na Livraria da Vila da Vila Madalena, parada no balcão, com os óculos na ponta do nariz, lendo em pé. Bati o olho e soube, essa entende. Foi também a primeira vez que entrei na livraria que desde então se tornou a minha livraria. Pra mim Cida é na verdade uma espécie de fada madrinha. De repente ela se materializa do seu lado, puxa um livro de alguma pilha e sussurra:

-              Esse.

Não é que ela entenda tudo de livros. Ela consegue criar conexões entre livros e pessoas. Sabe quem combina com o que, quem deveria ler quem, quem você está procurando sem nem saber. Duvida? Vai lá pra ver. Eu garanto.

Escrito por Índigo às 09h24

Leitor 68: Fernanda Dumbra

Escrito por Índigo às 10h26

Dizem que cabe ao leitor dar significado ao texto. Eu nunca duvidei, mas também nunca entendi direito o que isso queria dizer. Até que um belo dia Fernanda Dumbra pegou alguns textos meus para ler. Foi um choque. Aquilo que eu considerava engraçado, na sua interpretação ficou sombrio. O que era para ser triste virou comédia. Onde eu havia apenas narrado, sem nenhuma ambição, virou um momento de grande suspense. No fim sobrou apenas uma certeza, eu não sabia o que eu tinha escrito. Em algum ponto, no meio do caminho entre aquilo que botei no papel e o que chegou até ela ocorreu uma metamorfose maluca. Foi aí que eu entendi a tal contribuição do leitor. A verdade é que vocês fazem o que querem com o texto da gente.

Escrito por Índigo às 10h26

Leitor 67: Marcelino Freire

Escrito por Índigo às 12h09

Com sete anos de idade eu achava que sabia ler. Era uma coisa resolvida na minha cabeça, até que muitos anos depois conheci Marcelino Freire e descobri que eu não sabia ler coisa nenhuma. Hoje, se sei ler uns continhos em voz alta, é graças a ele. Teve uma época em que reuníamos um grupo de escritores e vivíamos lendo um para o outro. Quer dizer, nós líamos, Marcelino interpretava. Em alguns contos parecia que ele estava dando uma bronca no mundo, noutros eu achava que ele ia sair voando. Ele era aparelho do texto.
Foi assim que eu aprendi a ler pela segunda vez. Esqueci tudo que sabia até então e comecei, palavra por palavra, frase por frase, até conseguir ouvir cada letrinha individualmente. Alguns anos depois tive um terceiro aprendizado. Falo disso amanhã.

Escrito por Índigo às 12h09

Leitor 66: O leitor puro

Escrito por Índigo às 09h08

Ele detesta quando interferem na sua leitura. Resenhas de jornal, críticas, adaptações para cinema... ele evita. Nem o texto de orelha ele lê antes de começar o livro. Sabe que orelhas têm o poder de matar boas surpresas do livro. Prefácio? Pula. O problema é quando se encontra em situações sem saída. Numa mesa de bar, por exemplo. Conversa vai, conversa vem, e começam a falar do livro que ele ainda está lendo. Ou se levanta e vai para o banheiro ou enfia os dedos nos ouvidos e começa a cantar sozinho. Ninguém respeita seu desejo de preservar sua ingenuidade. É um mundo cruel.

Escrito por Índigo às 09h08

Leitor 65: O leitor saltitante

Escrito por Índigo às 08h53

Não é por descaso ou falta de interesse, é apenas a natureza desse leitor. Ele pula trechos e páginas. Se começa a ficar chato ou difícil........ poing, pulou. Continua a leitura a partir do ponto onde aterrissou. Se lá para frente a história começa a ficar desencontrada ele pula para trás e recupera as informações necessárias. É como um sapinho alegre que transita faceiro pelo livro. Melhor assim que certas criaturas que preferem se arrastar por todas as linhas, todos os trechos enfadonhos, por cada nota de rodapé, para depois chegar exaurido à última página, botando os bofes para fora.

Escrito por Índigo às 08h53

Leitor 64: O leitor caseiro

Escrito por Índigo às 08h44

Para ele o livro é uma casa aonde irá se instalar com a ajuda do autor. Assim um bom autor é aquele que define com precisão o ambiente, os limites geográficos da história e a população fixa e itinerante. Ele também deve passar a sensação de domínio absoluto quanto ao ritmo da história. Nada de solavancos, marasmo ou redemoinhos. Isso é fundamental para que o Leitor Caseiro se sinta confiante. Claro que isso não acontece assim, pa-pum. No começo tem um período de adaptação. Mas com o andar da história o leitor começa a se sentir em casa. Aliás, esse tipo de leitor vive à procura de um lar definitivo. Tudo que ele mais quer é um mundinho onde se sinta confortável. Quando encontram, costumam ser fiéis. Terminado o livro vão atrás de outros títulos do mesmo construtor.

Escrito por Índigo às 08h44

Leitor 63: O leitor da Turma da Mônica

Escrito por Índigo às 09h47

Muitas vezes eu me pergunto o que tem ali nos gibis da Mônica que faz com que consigam resistir à passagem do tempo, da moda, de geração após geração. Pra mim a resposta tem a ver com as ruas planas, as casinhas térreas, de muro baixo, as colinas suaves e o céu sempre azul piscina. É um mundinho harmônico e feliz. Repare como nesse mundo a cobertura vegetal é extensa, com o detalhe que a grama está sempre bem cuidada. As construções são amplas e com um bom espaço livre entre uma e outra. Outro fator importante é ali que não tem morro. No máximo uma leve subidinha, para dar mais emoção ao passeio de skate, mas nunca um morro, uma região serrana. Isso jamais.

Escrito por Índigo às 09h47

Leitor 62: O leitor do futuro

Escrito por Índigo às 09h56

Este vem com um mecanismo interno que de tempos em tempos limpa a memória de leitura, apagando livros antigos para que novos possam entrar. A tendência é que cada vez mais veremos leitores operando dessa maneira. A vantagem, para o mercado editorial, é que leitores assim podem consumir grandes quantidades de livros, dos mais variados gêneros, estando sempre ávidos por novidades. Com a função Esvaziamento Imediato de Memória eles podem inclusive comprar o mesmo livro duas vezes sem se dar conta. Para o leitor fica uma agradável sensação de mente limpa, sem aquela confusão de títulos, personagens e cenas soltas, frases e nomes de autores, tudo embolado, um caos de informações fictícias sem pé nem cabeça.

Escrito por Índigo às 09h56

Leitor 61: O leitor mão na massa

Escrito por Índigo às 08h04

Dizem que um bom leitor é aquele que consegue preencher lacunas e dar vida ao texto. O maior exemplo disso é o leitor de receitas. Primeiro, porque as lacunas são abissais. Nesse sentido certas receitas são pura poesia. O autor joga as palavras ali e cabe a você conferir um significado para aquilo tudo. Não é à toa que são raríssimos aqueles que assinam receitas. A maioria prefere o anonimato. Segundo, porque literatura pode ser uma atividade muito prazerosa e coisa e tal, mas só o leitor de receitas consegue pegar um texto abstrato e transformá-lo em algo que vai encher a barriga do povo.

Escrito por Índigo às 08h04

Leitor 60: O leitor Passione

Escrito por Índigo às 08h36

Eu os admiro. Eu mesma adoraria ter as habilidades do Fred Lobato no que diz respeito à velocidade e compreensão de leitura. Você recebe um calhamaço de documentos que devem ser lidos com atenção. Tá, tudo bem que eu não sou a pessoa mais rápida do mundo. Se me dão um calhamaço, no assunto que for, primeiro eu vou fazer um chá, depois eu me acomodo no sofá, dependendo do dia eu pego um cobertor, já pego uma caneta e um bloquinho e começo a leitura. Com atenção. Deve ser por isso que eu não leio um décimo de tudo que eu gostaria. Mas se eu fosse que nem o Fred, um calhamaço de documentos, zaz, três segundos e está tudo lido, ele já entendeu tudo e já formulou uma opinião a respeito. Incrível. O perigo é se você herdar as habilidades da B. Gouveia. Ela demorou mais de um ano para sacar que Otabol é Lobato de trás pra frente. Grave isso...

Escrito por Índigo às 08h36

Leitor 59: Leitor Soneca x Autor Sonífero

Escrito por Índigo às 08h59

Essa é uma daquelas questões polêmicas, na linha ovo x galinha. Será que é o leitor que, por ser avoado começa a sonhar acordado ou será culpa do autor, que por ter produzido um texto enfadonho fez com que o leitor divagasse a perder de vista. É algo que eu sempre me pergunto. O problema do Leitor Soneca é que normalmente ele se faz de vítima, joga a culpa no autor, fecha o livro e depois ainda tem o disparate de falar mal da obra. São poucos os que tomam a responsabilidade para si. Mas daí temos também o Autor Sonífero, que sabe ser sádico quando quer. Esses dias eu atravessei dez páginas de um certo clássico da literatura universal que dava tédio profundo. Aquele tédio esmagador que acaba com a gente. Dormi no ato. O nome do livro não vem ao caso. Como eu disse, pode ter sido uma limitação minha.

Escrito por Índigo às 08h59